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"O cd-rom, o dvd ou o próximo suporte que surgir são a metáfora da mente."


Marco Gasperetti intervistato
da Vitor Casimiro per www.educacional.com.br

 

A verdadeira revolução não é a aquisição do saber com as tecnologias digitais, mas o modo pelo qual, graças a softwares e técnicas especiais,
esse saber é memorizado e arquivado.


Ele já está no Aurélio: “hipertexto(ês) [de hiper- + texto; do ingl. hypertext] S.M. 1. Forma de apresentação ou organização de informações escritas, em que blocos de textos estão articulados por remissões, de modo que, em lugar de seguir um encadeamento linear e único, o leitor pode formar diversas seqüências associativas, conforme seu interesse.”

Na opinião de Marco Gasperetti, também deveria estar nas escolas, orientando todo o processo de aprendizagem. Para ele, o hipertexto não é simplesmente o recurso que nos leva de uma página da Internet a outra ou que nos permite ler um texto de trás para frente. É a chave para se obter um conhecimento personalizado.

Por isso, defende que lugar de computador é nas salas de aulas - em vez de confinados nos laboratórios de informática - e acredita que as crianças devem começar a usá-lo desde cedo. Seu filho caçula, Luca, de apenas seis anos, "sempre conviveu com o computador e o introjetou na sua psique. Mouse e teclado se tornaram realmente uma extensão cerebral", assegura.

Gasperetti antevê que, além de personalizado, o conhecimento será cada vez mais "hipermediático", isto é, códigos audiovisuais de comunicação estarão numa queda-de-braço cada vez mais acirrada com o texto. Ele se vale do exemplo italiano para crer que essas mudanças vieram para ficar. Há dois anos os exames do ensino médio em seu país avaliam trabalhos escolares que incluem recursos multimídia.

Para quem se inquieta com o impacto do declínio do texto na formação dos alunos, ele argumenta que Sócrates também se irritava com o avanço da escrita. Temia que a memória e a criatividade fossem destruídas pela palavra escrita.

Ao contrário disso, o próximo livro de Gasperetti bem que agradaria o filósofo grego. Ele chama atenção para algo pouco lembrado pelos desmemoriados. Em um mundo com uma quantidade cada vez maior de informações, tão importante quanto ter acesso a elas através das novas tecnologias é a forma como todo esse saber será arquivado.

Mario Gasperetti concedeu a entrevista a seguir por e-mail, antes de sair de férias, para esquecer por alguns dias que todos esses problemas existem.

Em que consiste a teoria das interfaces do conhecimento de que trata seu último livro?

Marco Gasperetti - Hoje, graças às novas tecnologias, o modo de aprender está mudando. Canetas óticas, scanners, palm pilots, câmeras de vídeo digitais, softwares para o reconhecimento de voz, masterizadores e outras diabruras hi-tech são os protagonistas de uma nova revolução copernicana: aquela das interfaces do conhecimento. Ou seja, aqueles dispositivos de software e hardware que permitem acessar diretamente o mundo da informação e conquistar autonomamente o conhecimento personalizado. O estudante do futuro será cada vez mais interativo e participará da construção do próprio saber utilizando as novas tecnologias.

Que outras mudanças, além da interatividade e da construção de um saber personalizado, pode-se esperar com a adoção das novas tecnologias?

Marco Gasperetti - A verdadeira revolução não é a aquisição do saber com as tecnologias digitais, mas o modo pelo qual, graças a softwares e técnicas especiais, esse saber é memorizado e arquivado. É aqui que a inteligência e a sensibilidade de uma pessoa simples podem exprimir-se, arquivando em um simples disquete seu percurso de obtenção do conhecimento. Sim, porque o CD-ROM, o DVD ou o próximo suporte que surgir são a metáfora da mente. A bagagem cultural se transforma em digital e se integra com o que os neurônios vão esculpindo no cérebro, onde se esconde a memória humana.

Falando em metáfora da mente, o senhor defende que o hipertexto é o meio mais apropriado à aprendizagem porque se assemelha aos mecanismos da mente humana. O senhor acredita que as escolas vão um dia substituir o ensino tradicional pelo ensino por hipertexto?

Marco Gasperetti - Creio que sim, embora minha afirmação possa parecer surpreendente. Sei que as escolas de todo o mundo estão, infelizmente, lidando com problemas muito mais banais e dramáticos, como falta de aulas e de recursos e professores mal pagos, que precisam lutar contra uma burocracia quase sempre míope e reacionária. Mas o progresso não pára. A escrita é uma tecnologia que mudou o mundo e, naturalmente, a escola. A tecnologia da informática fará o mesmo e de maneira tão rápida que provavelmente em poucos anos a forma de aprendizado não será mais a que conhecemos. O saber se obterá de modo personalizado e “hipermediático”, isto é, com mais códigos de comunicação e através de relações não-lineares, ou seja, por categorias, como, aliás, funciona o pensamento metacognitivo.

Que medidas são necessárias para que a escola adote o ensino pelo hipertexto? É necessário, por exemplo, que cada aluno tenha seu computador para fazer pesquisas e trabalhos escolares?

Marco Gasperetti - O modelo de ensino através de hipertexto não segue esquemas rígidos e é extremamente criativo. O estudante, ao criar um hipertexto, aprende a criar suas próprias categorias e a relacioná-las. Recria um percurso metacognitivo de maneira ativa no computador, simulando de alguma maneira os sofisticados e complicadíssimos processos mentais. Estudar no computador não é somente um ato individual. O trabalho em grupo, principalmente usando a Internet, é indispensável. Porém, as novas tecnologias em geral tendem a personalizar o aprendizado. É, portanto, aconselhável que se tenha mais computadores em sala de aula e, sobretudo, que se evite confiná-los em um laboratório multimídia. O computador deve estar em sala para todas as disciplinas

Isso significa que não basta apenas que os professores modifiquem suas práticas pedagógicas e privilegiem atividades mais participativas e interativas entre os alunos?

Marco Gasperetti - Essa é a parte mais controvertida e difícil. O problema da educação personalizada está sendo debatido há anos e, freqüentemente, com resultados frustrantes. As novas tecnologias, se bem aplicadas, podem não somente derrubar as robustas paredes da sala de aula - basta pensar na Internet - mas também ajudar alunos e professores a superar problemas, seja com exercícios individuais (o computador oferece um feedback imediato e, portanto, as aulas podem ser personalizadas para cada estudante), seja garantindo uma ligação com a casa do aluno depois da aula. Na Internet podem-se criar comunidades de estudo divididas em níveis de dificuldade e grupos de interesses. Mas os alunos também podem superar essas dificuldades utilizando um método pedagógico muito antigo, aquele do ensinamento mútuo, do pedagogo suíço Pestalozzi.

Considerando a quantidade e a rapidez das informações a que os alunos têm acesso via Internet e que o hipertexto é um meio extremamente pessoal de pesquisa, como os educadores poderão se adaptar às necessidades de um ensino personalizado?

Marco Gasperetti - A redundância das notícias na Internet, ou seja, a abundância de informações, é um grande problema. Não somente para os professores, mas, sobretudo, para os estudantes que precisam pesquisar. Hoje o problema em educação não é mais o "problem solving" mas o "problem finding". Não bastam os motores de busca mais ou menos inteligentes. Estudantes e professores devem aprender técnicas de comunicação para procurar e produzir notícias on-line. Em resumo, devem transformar-se em operadores da informação, um pouco jornalistas talvez. Isso não é uma novidade. Nos anos trinta, na França, um professor, Celestin Freinet, levou para dentro da sala de aula uma impressora tipográfica e transformou a classe em um laboratório jornalístico. Os estudantes faziam o jornal aprendendo na prática. Entrevistavam o prefeito, visitavam fábricas e museus e depois escreviam, construindo seu conhecimento. E, acredite, aprendiam muito.

O senhor considera que, se pudéssemos resumir uma enorme biblioteca virtual em uma palavra, essa palavra seria "conheça". O que o senhor quer dizer com isso?

Marco Gasperetti - A Internet está transformando em realidade aquilo que há trinta anos parecia fantasia da imaginação de Ted Nelson, que com o projeto Xanadu preconizou o advento de uma espécie de Biblioteca de Alexandria digital. A Internet não é somente uma biblioteca, mas um local virtual de conhecimento.

Outra questão que o ensino por hipertexto coloca em discussão é a dificuldade que terão os professores que desejarem seguir à risca um programa previsto por ano escolar.

Marco Gasperetti - Não creio. Computador é fantasia - como eu dizia - e também flexibilidade. Os programas rígidos não fazem bem à "pessoa didática". O computador é um meio formidável, mas deve ser completado com conteúdo. E são professores e alunos que devem fazê-lo.

O senhor constata que os alunos, mesmo os mais jovens, já começam a escrever "redações" multimídia. O senhor cita o exemplo da garotinha Valentina, de oito anos, que escreveu uma redação sobre um passeio adicionando folhas e pedrinhas que coletou. O que as crianças querem manifestar quando optam por incluir recursos multimídia em seus trabalhos?

Marco Gasperetti - Na Itália, já há dois anos, nos exames da Escola Média (semelhante ao Enem, do Brasil), os alunos podem apresentar suas teses em formato multimídia, usando mais linguagens. A linguagem dos jovens e crianças está mudando. Eles se exprimem de maneira “multimediática”, com mais códigos (visuais, auditivos, hipertextuais), que apreenderam pela televisão e pelo computador. Essas mudanças devem ser levadas em consideração pela escola.

Qual é a reação dos educadores ao receber uma redação assim? O senhor acredita que eles incentivam os alunos a utilizar em seus trabalhos outros códigos além da linguagem escrita?

Marco Gasperetti - Muitos professores freqüentemente se preocupam com este fato: seus alunos sabem usar o computador melhor do que eles. Mas eles não devem se preocupar, mas, sim, modificar a sua mentalidade. Devem descer da "cátedra" e criar com os alunos uma comunidade de aprendizado na qual também eles possam crescer. Muitos já estão fazendo isso, mesmo sem computador.

Talvez os alunos que apresentem trabalhos multimídia queiram dizer que o texto já não é o bastante para eles. O senhor acha que isso se deve ao fato de que os alunos, por terem videogames e computadores em casa, se sentem entediados com os trabalhos tradicionais?

Marco Gasperetti - Na escola se brinca pouco, aliás, muito pouco. Entretanto, como dizia o grande Friedrich Schiller, o homem é verdadeiramente tal somente quando brinca. As simulações por computador são um formidável instrumento para aprender: podem-se recriar ambientes científicos para experiências em tempo real e aprender história, geografia, filosofia, matemática e muitas outras disciplinas.

Como as novas tecnologias podem servir de estímulo ao aluno?

Marco Gasperetti - Com a brincadeira, por exemplo. Como eu dizia, na escola se brinca pouco quando todos sabemos que a atividade lúdica é imprescindível. O computador é uma máquina de brincar por antonomásia. Uma criança pede aos pais um computador para se divertir e não para fazer lição de casa. Mas a diversão pode se tornar estudo.


O senhor defende que, se os alunos estudassem em um ambiente que aliassem textos e ícones, como os que temos nas telas de computador, os alunos teriam um melhor desenvolvimento cognitivo.

Marco Gasperetti - Existem estudos com base científica que demonstram que, utilizando-se mais códigos (vídeo, texto, áudio), se aprende melhor. O estudo deve utilizar, portanto, mais códigos e mais mídias. O livro não deve desaparecer, mas integrar-se ao computador.


Existem métodos que visam melhorar as habilidades de escrita e leitura dos alunos, mas como podemos "alfabetizar" os alunos para trabalhar com imagens?

Trabalhando, construindo, fazendo junto. As crianças são naturalmente predispostas a utilizar as novas mídias. Tenho três filhos, o mais velho tem 19 anos e o mais novo, seis. A outra é uma menina de 12 anos. Luca, o de 6 anos, utiliza mouse e teclado de maneira incrível. Sempre conviveu com o computador e o introjetou na sua psique. Mouse e teclado se tornaram realmente uma extensão cerebral.

O aluno de forte formação audiovisual muitas vezes é acusado de não ter olhar crítico em relação aos meios de comunicação. O senhor concorda com essa posição?

Cada nova tecnologia, ou cada novo meio, muda radicalmente o modo de pensar e conceber o mundo. Sócrates odiava a escrita e a considerava uma tecnologia que iria destruir a memória e o pensamento criativo. O seu método se chamava maiêutica e tinha como base a retórica. A escrita e, posteriormente, a imprensa não só não destruíram a memória como fizeram nascer o pensamento analítico. Claro, os dotes de memorização, indispensáveis na sociedade pré-alfabética, já não são assim tão importantes, mas a escrita potencializou novas capacidades. Hoje a “multimidialidade” derruba lentamente e inexoravelmente algumas qualidades, estimulando outras.


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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional


Tradução do italiano por Gilberto Mariot

(04.08.2000)

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